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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Atendimento psicológico online

 Compartilho aqui trechos da carta do meu projeto "Correio Terapêutico", onde há relatos de pessoas que estão sendo atendidas em psicoterapia online:

Belo Horizonte, sob os ventos de agosto de 2020.

Prezada(o),
Espero que esta carta te encontre bem.
Os desafios da pandemia continuam nos cercando e nos exigem novas habilidades, capacidade de nos adaptarmos e criação de novas formas de lidarmos com o cotidiano. As crises (como esta acarretada pela pandemia) podem ser entendidas como um chamado para mudanças e os que são capazes de se abrirem para o novo tendem a ser mais bem sucedidos no seu enfrentamento. São nas crises que as inovações tendem a surgir com mais força.
Na prática da psicoterapia, também inovamos. Se antes o atendimento presencial era o que mais ocorria, hoje, para preservarmos o distanciamento social recomendado para o período da pandemia, o atendimento online tornou-se rotina e tal prática passou a ser mais facultada pelo Conselho Federal de Psicologia. (...) Por vezes, a pessoa não tem os recursos mínimos para o atendimento online (um local onde possa estar em privacidade e falar sem interrupções, um aparelho de celular ou computador com câmera e com acesso a internet que permita videochamadas) e por isso não agendaram atendimentos conosco. No entanto, percebo que muitas pessoas não desejam nem fazer uma sessão experimental de psicoterapia na modalidade online não por falta das condições que aqui citei, mas por uma resistência ao atendimento psicológico pela internet, preferindo aguardar o “retorno ao normal”. E, muitas vezes, esta espera poderia ser melhor vivida se a pessoa já estivesse num trabalho terapêutico e aprimorando seu autoconhecimento. Sendo assim, com ajuda de pacientes que colaboraram voluntária e zelosamente com seus relatos (e que não serão identificados), partilho, aqui, alguns depoimentos de quem se encontra em processo de psicoterapia online para retratarem os benefícios que esta modalidade de trabalho tem e quem sabe, assim, sensibilizar os que estão resistentes a tal procedimento:
“Fazer terapia tem me ajudado com muitas questões das quais tenho dificuldade em resolver e até mesmo de enxergar. Como estamos vivendo um período que atendimentos presenciais devem ser evitados, decidi começar com o online e não esperar. Me surpreendi com as sessões, com a dedicação da psicóloga e de não ter sentido diferença do presencial para o online. Graças a tecnologia estou podendo dar continuidade a terapia que me faz bem e me ajuda!”
 “Hoje vivemos uma modalidade estranha de nos comunicarmos, a qual me causa espanto, principalmente quando se ouve falar em terapia a distancia. Eu fui relutante, não aceitei, até perceber que meu equilíbrio emocional estava pedindo ajuda e eu precisava agir rápido. Foi aí que percebi que solicitar uma agenda para terapia, mesmo em videoconferência, era o passo principal para meu retorno ao equilíbrio. Só assim para eu provar para mim mesmo como é importante lapidar o preconceito e voltar para a vida com a leveza que a psicoterapia pode oferecer, ainda que em videoconferência.”
“Gostaria de lhe dizer que a terapia tem me feito muito bem, pois através dela estou me conhecendo melhor e entendendo as minhas dificuldades e necessidades. Para mim foi muito difícil aceitar que precisava de ajuda, pois sempre achei que sozinho resolveria minhas tristezas, angústias e incertezas. Hoje, tendo essa oportunidade, me sinto muito à vontade e confiante pelo respeito, carinho e compreensão da profissional, além de receber ferramentas que me são oferecidas e que contribuem mais ainda para meu ponto de equilíbrio. A terapia online é muito importante, tendo em vista que em um momento difícil de pandemia, dispomos de  oportunidade para buscar ajuda e conhecimento de forma tão eficiente e ágil, não perdendo a proximidade, clareza e calor humano, tão importantes nestas situações.”
 
“Há mais de 14 anos na instituição e após ser reprovado no exame psicotécnico (tiro), fui marcar o reteste e conversei com a psicóloga, que me orientou sobre o acompanhamento psicológico para os guardas. Aceitei a ajuda e comecei, mas veio a pandemia e nos tirou o chão. A pronta resposta foi dada com o início das sessões online (virtual), onde continuo a me lapidar. O acompanhamento aborda todos os assuntos e está sendo uma grande ajuda nesses tempos. O homem pode perder tudo, menos a cabeça.Vamos nos cuidar!”
 
Esta carta foi escrita a muitas mãos e agradeço aos que colaboraram com seus relatos.

Deixo, por fim, a pergunta (para pensarmos não só em momentos de crise e para além do que aqui foi tratado): quando foi a última vez que fez algo pela primeira vez?
Inovar é preciso. Se quiser compartilhar suas reflexões, basta me escrever.
Com todo apreço, mesmo a distância,
Luciane Couto
                                                                                 
PS: Deixo hoje alguns versos do poema “Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade:
“Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui pra diante tudo vai ser diferente”.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Correio Terapêutico - quarta carta

Belo Horizonte, numa expressiva manhã de maio de 2020.

Prezada(o),

Como você tem estado?

Hoje começo falando de outra etapa da respiração: expirar. Lembro que nas últimas duas cartas, falei sobre a importância de respirarmos lenta e profundamente como um exercício para relaxamento. Gostaria de ressaltar agora como expirar de uma forma melhor: após inspirar o ar vagarosamente pelo nariz e levá-lo para o diafragma, buscar soltar o ar pela boca, gastando mais tempo ao soltar o ar do que gastou para inspirá-lo. Pode, ainda, imaginar que a cada expiração você vai colocando para fora, além do ar, também as tensões, as preocupações, os pesos no corpo... Enfim, ao focar também no expirar, terá mais um complemento para um exercício respiratório com mais consciência.

Dentro dessa linha do “expirar”, julgo ser importante também refletirmos sobre como nos expressamos, como colocamos “para fora” o que pensamos e sentimos. Já sabemos que, na psicoterapia, incentivamos pessoas a tomarem consciência de suas emoções e sentimentos e a expressá-los devidamente, dentro e fora do consultório. Não raramente, percebo que muitos dos que atendo reconhecem que não se expressam de forma saudável: por exemplo, uns guardam tudo para si, resultando em adoecimentos inclusive físicos (tais como úlceras gástricas agravadas pela ansiedade; alergias de pele sem causa física detectada por exames; dores de cabeça provocadas por nervosismo...), já outros se colocam de forma violenta, seja no falar ou no agir.

Um conceito que julgo importante para afinarmos a forma de nos expressar é o de “assertividade”, que significa saber se colocar para o outro de forma firme e direta, mas não de forma violenta ou omissa. Ser pacífico sem ser passivo. Para sermos mais assertivos, precisamos, dentre outras características, nos conhecermos melhor e termos mais autoconfiança para nos posicionarmos e sermos empáticos (colocarmo-nos “no lugar do outro”). Resumindo, ser assertivo é saber o que dizer e para quem dizer, no momento e local mais propícios e da forma mais adequada.. Há vários livros que tratam sobre assertividade, para quem quiser aprofundar no tema. E também se pode aprimorar num processo psicoterapêutico a capacidade de ser assertivo.

Por último, friso que também podemos usar técnicas artísticas para nos expressarmos. Já se conhece os efeitos terapêuticos de atividades como pintar, bordar, esculpir, cantar, dançar, escrever... A escrita tem sido minha forma artística preferida há tempos para me expressar (através da poesia, contos e crônicas, sobretudo) e me tem trazido muitas dádivas, novas amizades, outros trabalhos, amplos horizontes, além de auxiliar na minha sanidade mental.

Você usa alguma forma de arte para se expressar?

Espero que minhas palavras de hoje possam ter expressado, mais uma vez, meu desejo pelo seu bem-estar. Se tem se expressado através da arte e desejar compartilhar isto e outros assuntos comigo, pode me enviar uma mensagem.

Gentilmente,

Luciane Couto



PS: Partilho aqui um poema meu, feito nesta semana, chamado “Na Despedida” e que pode simbolizar o poder da escrita:

Antes do adeus premente
Já  tinha  um poema
No canto do olho
E logo teria o olhar
Todo marejado de poesia.

Dispensou o lenço
Oferecido após
O derradeiro abraço
E deixou os versos
Escorrerem livremente.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Correio Terapêutico - terceira carta

Belo Horizonte, numa inspirada manhã de maio de 2020.

Prezada(o),

Como tem estado? E como andam os ares por aí?

Na última carta, escrevi sobre a importância de colocarmos mais consciência em nossa respiração. Hoje gostaria de prosseguir no tema, focando no ato de “inspirar”. De forma concreta, uma sugestão de exercício respiratório voltado para um “inspirar” melhor é: sentar confortavelmente e voltar sua atenção para a própria respiração, desta vez puxando lentamente o ar pelo nariz e buscando enviar o ar não só para o pulmão, mas bem abaixo, para o abdômen (ou seja, sentindo o tórax aumentar de tamanho a cada puxada de ar e também a barriga se distendendo com o ar aspirado) e só depois soltar o ar. Assim, o ar chega ao diafragma, deixando a respiração mais profunda e, de fato, completa. Respirando algumas vezes como descrevi aqui, pode se obter uma sensação de relaxamento.

Agora pergunto: além do ar ao respirar, o que mais tem (te) inspirado? O que a vida te traz ou você busca que nutre seu bem-estar? Tem se inspirado através de livros, filmes, outras formas de arte, natureza, amizades, espiritualidade, mentores? Um dos primeiros livros que li e muito me inspirou foi “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach. Reli recentemente esse livro e a história sobre superação de limites continua me soando muito inspiradora.

O que colocamos para “dentro da nossa alma” é importante, pois alimenta nossas ideias e sentimentos. Selecionar, por exemplo, o conteúdo das nossas leituras, reportagens que assistimos e das conversas que sustentamos é recomendado, pois tais conteúdos podem nos fazer bem, mas também podem nos deixar mais ansiosos e tensos. Selecionar com quem nos abrimos e a quem solicitamos conselhos também é fundamental, pois tantas vezes a outra pessoa enfrenta seus dilemas e desafios e não tem condições de nos aconselhar de uma forma  colaborativa. O autoconhecimento (que pode ser aprimorado num processo psicoterapêutico) contribui para delimitarmos o que nos inspira ou o que pode estar contribuindo para o nosso adoecimento.

 E quem você tem inspirado? Muitas vezes, mesmo que não o percebamos, estamos inspirando quem nos cerca, seja um familiar, um amigo, um colega de trabalho... Uma vez, percebi isso graças a um amigo artista, quando fui, pela primeira vez, prestigiar um trabalho artístico dele. Após a apresentação, ele me chamou ao camarim, me abraçou e agradeceu, dizendo que foram conversas que tivemos há anos, quando trabalhamos juntos, uma das coisas que o incentivou a se manter no caminho artístico. Eu não me lembrava de tais conversas e, certamente, não as tive com a consciência do peso que elas teriam na vida do meu amigo. Porém, sou grata por esse retorno que meu amigo me ofertou, que me ajudou a refletir, a partir de então, muito mais sobre o que falo ou escrevo. Felizmente, meu amigo seguiu seu propósito de vida e, assim, ele presenteia a mim e a tantas outras pessoas com suas maravilhosas apresentações artísticas.

Ainda sobre inspirações, lembro com carinho da mãe de uma amiga da época de adolescência, que recebia a mim e a outros vários jovens em sua casa, servindo bolo de cenoura, indicando-nos filmes e livros e nos orientando sobre estratégias para lidarmos com várias angústias que vivíamos da puberdade. Quando me mudei de cidade e, várias vezes, pude viajar e me hospedar na casa de tal amiga, era recebida com tanto zelo por sua mãe que passei sempre a ter essa mulher como referência de como acolher bem. Há alguns anos, pude homenagear a mãe de minha amiga num outro texto, onde eu deixava claras as inspirações que dela recebi – texto que a mulher inspiradora pôde ler antes que falecesse (precocemente, vítima de um câncer).

Que tal dizermos hoje para alguém sobre algo que tal pessoa tenha nos inspirado?

E gostaria de compartilhar comigo suas inspirações? Se sim, pode me escrever. Se achar que minhas cartas do projeto “Correio Terapêutico” podem inspirar outras pessoas, partilhe-as, por favor.

Gentilmente,

Luciane Couto

PS: Uma frase de Nelson Mandela (cuja biografia, em livros – inclusive há um livro baseado em suas cartas, diários e outros registros, chamado “Conversas que tive comigo” - e filmes – como “Longo Caminho para a Liberdade” e“Invictus” - pode ser muito inspiradora): “devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito e inspirar onde há desespero”. 

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Correio Terapêutico - segunda carta

Belo Horizonte, numa arejada manhã de maio de 2020.

Prezada(o),

Espero que esta carta te encontre bem.

A COVID-19, doença que  nos traz tantos desafios no momento, notadamente é  conhecida pelos danos causados ao sistema respiratório. Isso me fez querer refletir na carta de hoje sobre a importância  desse ato tão  vital e que, não raras vezes,  negligenciamos (mesmo quando não há a interferência de qualquer vírus): respirar.

Começo ressaltando que o sentido  envolvido com o ato de respirar, o olfato,  pode ter muita influência sobre nossa percepção do mundo.  Podemos ser muito impactados pelos cheiros e nossa história de vida muitas vezes é marcada pelos aromas. No meu caso: o aroma que vem da embalagem de “Leite de Rosas”  me faz lembrar  de minha bisavó,  mulher sábia e forte; leitora  voraz que sou, sempre noto o cheiro que os livros (novos ou velhos) podem ter; após  um dia exaustivo, assar um bolo em casa e sentir o ar doméstico impregnado de doçuras vindas do forno me traz um conforto instantâneo; ao abraçar meu filho ao longo do seu crescimento  fui sentindo  seu cheiro mudar ao longo  dos anos, começando  com sabonete de bebê,  passando  pelo  cheiro de tutti-frutti do chiclete  e da grama do jogo de futebol até a loção  pós-barba nos dias atuais... E quem viu o filme “Perfume de Mulher”, onde o personagem Frank, cego, identificava as pessoas, sobretudo as mulheres, pelo cheiro?  Há, inclusive, a aromaterapia, que é uma técnica que usa óleos essenciais para o cuidado físico e emocional. Enfim, olfato e emoções se interligam.

 

Respirar  é  nosso primeiro ato de resistência: vir ao mundo é  ter que respirar. Enquanto respiramos, vivemos. O ar é vital, repito. Mas estamos respirando bem? Humanos, animais e plantas  vivem de uma melhor forma se usufruem de ar com qualidade, sem poluição (um  dos efeitos positivos do confinamento atual, registrado  em várias partes do mundo, é  a diminuição dos índices  de poluição, a ponto de se conseguir avistar o Himalaia em regiões onde a cordilheira esteve encoberta por décadas pelo ar carregado de impurezas).  Belo  Horizonte já foi reconhecida pela qualidade  de seu ar e clima, atraindo, assim, pessoas que vinham passar temporadas em seus sanatórios para se tratarem da tuberculose. Isso ocorreu no início do século passado, antes de medicamentos mais eficazes para a doença chegarem ao Brasil por volta de 1950 (até então, as pessoas com tuberculose eram obrigadas a se afastarem das pessoas queridas, pois a tosse gerada pode propagar a doença, o que muito nos lembra do que tem ocorrido no nosso momento atual). Até para os objetos o ar é  importante: temos que por roupas para respirarem de quando em vez, arejar a casa faz parte da sua manutenção  adequada...

 

Como psicóloga,  vejo no ato de respirar uma importante  pista sobre a saúde emocional dos pacientes: angústia  pode trazer o aperto no peito, como se o ar não  fluísse; ansiedade pode não  deixar o ar entrar o suficientemente;  a cólera  pode acelerar  por demais a respiração... Não respirar adequadamente traz impactos em nosso físico, mas também em nossa saúde mental. 

 

Então, através  da carta de hoje quero te incentivar a colocar mais consciência sobre teu ato de respirar.  Sugiro   que, ao terminar a leitura, faça  algo simples:  concentre em tua respiração  por um ou dois minutos. Não  precisa tentar  controlá-la, apenas observar:  como o ar entra e sai? Qual a temperatura que sente no ar que puxa e no ar que solta? Tua  respiração  está  em que ritmo: devagar ou acelerada? Está superficial  ou mais profunda? 

 

Essa prática  simples  pode ser feita em qualquer momento em que se sinta a necessidade de fazer uma pausa para tentar relaxar e pode ser  o ponto  de partida para um exercício de atenção  plena, que vários estudos indicam como benéfico para a saúde emocional. Nas próximas cartas, trarei mais um pouco de sugestões de relaxamento através da consciência respiratória.

 

Se achar que tuas emoções  estejam interferindo negativa e rotineiramente  no teu ato de respirar, pode ser o caso de buscar ajuda profissional.  Já há relatos que pacientes  chegaram ao hospital suspeitando que estivessem com sintomas da COVID-19, mas, na verdade, estavam com crises de ansiedade. Penso que, na psicoterapia, muitas vezes  nós  psicólogos também  precisamos  usar técnicas intensivas para ajudar os pacientes  a respirarem melhor, e isso passa pelo trato das  emoções, aqui não com o uso de respiradores artificiais, mas através da empatia e escuta qualificada.

 

Espero  que minhas palavras de hoje tenham sido um respiro no teu cotidiano. Continuo aberta  para acolher quem desejar me escrever.

 

Gentilmente,  

Luciane Couto 

 

PS: trecho do poema “Inundar de Infância”, de Mia Couto:

“Dentro de mim

o universo se dissolveu

e um respirar de céu

em meu peito se inundou”. 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Correio Terapêutico

Outras instâncias tem recebido mais escritos meus que esse blog. Mas resolvi partilhar aqui as cartas que estou enviando a cada semana para os colegas de trabalho do local onde atuo como terapeuta.Chamei o projeto de "Correio Terapêutico" e é uma  das formas que encontrei para tentar levar alento e dicas para o bem-estar emocional durante a pandemia atual (também comecei a ofertar psicoterapia online). Partilharei as cartas para que o alento chegue a quem mais precisar...

Belo Horizonte, numa manhã de abril de 2020.


Caríssimo profissional da Secretaria Municipal de Segurança e Prevenção,

Aqui quem escreve é Luciane Couto, servidora pública na Prefeitura de Belo Horizonte e uma das psicólogas que atua na equipe da Diretoria de Saúde do Trabalhador (DSAT/SMSP). No atual cenário, onde uma pandemia traz tantos desafios e limitações, e estando o atendimento presencial na DSAT suspenso no momento, pensei numa forma de lidar melhor com essas questões e poder contribuir um pouco mais no nosso trabalho, ainda que à distância.

Desde o fim de minha infância, tenho uma afeição por cartas, tanto por escrevê-las como por lê-las. Por cartas, por exemplo, estabeleci relacionamentos que já perduram por décadas. Por cartas, ofertei e recebi alento, boas novas, conselhos, dicas, declarações de amor, desabafos, celebrações e tantas outras coisas que ajudaram a construir minha história e trajetórias. Também tenho um enorme interesse por livros que contenham coletâneas de cartas e por filmes onde as cartas se tornam personagens (um filme que já vi mais de uma vez e recomendo para quem gosta de cinema é “Nunca te vi, sempre te amei”. Já dou um spoiler: a tradução em português do título original do filme sugere uma história de amor romântico, mas o filme retrata a história real da amizade entre uma escritora que vivia no EUA com um livreiro do Reino Unido; uma forte amizade construída por meio de cartas) e nestes livros e filmes a capacidade de conexão e alento das cartas fica muito evidente.

Sendo assim, começo hoje um projeto que chamo de “Correio Terapêutico” (a palavra terapia vem do grego therapeia , que indica cuidar, o ato de curar ou restabelecer): a cada semana, escreverei uma carta na tentativa de contribuir com o seu bem-estar (e felizmente, com a internet, posso escrever uma carta e fazê-la chegar a muitas pessoas e de forma rápida. Não precisarei escrever à mão e esperar dias para que a carta chegue à mão do destinatário, como ocorria na minha infância. Mas acredita que ainda recebo cartas manuscritas nos dias de hoje e que eu as adoro?!).

Desde março passado, conversando com guardas municipais (por telefone, e-mail ou outros canais que nos possibilitam conversarmos à distância) percebi que estes não se queixaram em ter de trabalhar, mas relatam uma sensação de medo (sobretudo medo de serem contaminados pelo vírus Corona e contaminarem as pessoas com quem convivem). Como diz o escritor Mark Twain: “coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo”. Ou seja, é importante reconhecermos o medo e outras emoções e sensações que nos mobilizam, todavia o mais importante é encontrarmos estratégias para lidarmos com o medo e tudo que possa nos angustiar, e espero contribuir nas minhas cartas com algumas destas estratégias.

A própria Organização Mundial de Saúde, tão citada atualmente, diz que saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Portanto, temos que estar atentos ao nosso corpo, mas também às nossas emoções e relacionamentos para zelarmos por nossa saúde. Muito se tem falado das recomendações físicas para evitarmos o contágio pelo vírus (lavar ou desinfetar mãos, usar máscaras, distanciamento social, etc), mas quero ressaltar nas minhas cartas dicas para fortalecermos nossa imunidade emocional, o que, consequentemente, poderá contribuir com a nossa imunidade física. E friso a importância do autocuidado para sermos melhores para os outros e conseguirmos cuidar de quem estimamos. Cuidando de nós mesmos podemos cuidar melhor do mundo

Agora pergunto: o que você fez hoje para o seu próprio bem-estar? Como está o seu autocuidado?

Se considerar que me escrever para partilhar uma ideia, impressão ou mesmo um desabafo pode ajudar no seu bem-estar, por favor, faça-o!Responderei a todos que me escreverem e ressalto que o sigilo será mantido. Defendo o poder terapêutico das palavras e se, por hora, não posso ouvi-los no meu consultório, gostaria muito de ouvi-los por aqui.

Sintam-se abraçados por minhas palavras.

Gentilmente,

Luciane

PS: Trecho de uma carta de Clarice Lispector, datada de 1948: “para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos (...) cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim”.

sábado, 12 de maio de 2018

Entrevista sobre minimalismo

No início dessa semana fui citada numa matéria sobre o Minimalismo no Uol . Independente da minha fala ter sido muito  editada  e não expressar que os benefícios do minimalismo na minha vida vão muito além das minhas adoradas viagens, creio que é sempre bom difundir os preceitos minimalistas e ajudar as pessoas a refletirem sobre o ciclo muitas vezes insano de trabalhar pra consumir e consumir...

sábado, 17 de março de 2018

Uma cafeteria pra chamar de minha



 Estou lendo "O Labirinto dos Espíritos", de Carlos Ruiz Zafon, um dos meus autores prediletos.  E hoje, ao ler sobre a personagem em um café e  em como ela "tinha esquecido como gostava de de começar o dia observando as mudanças de cenografia do presépio em movimento da vida pública (...) enquanto se deleitava com a geleia de morango e derramava meia hora como se tivesse tempo de sobra" vi que esse relato retrata bem o porquê de eu apreciar tanto cafeterias: a calma, as doçuras, o convite para a demora, para a observação, para o vagar de ideias...

Nessa semana encontrarei duas amigas, em dias alternados, e marquei em dois dos cafés diferentes (raros) que tenho no entorno do meu trabalho.  Pertinho da minha casa não há nenhuma cafeteria, só padarias, que para mim, não ofertam o que preciso. 

As fotos deste post tirei no Café Majestic, em Porto/Portugal, numa manhã do mês passado (já me soa tão distante esta manhã!).Sim, é um lugar turístico e caro, mas eu quis conhecer pela arquitetura e história do local (e para provar as deliciosas  rabanadas de lá, que não me levaram à ruína financeira, afinal). E pude me demorar e observar e me sentir contente pelos caminhos que até ali me levaram.

Hoje não irei a nenhum café, mas no momento sonho em ter uma cafeteria  a poucos passos de casa. Não precisará ser um Café Majestic, mas certamente não será por aqui... Enquanto isso, viajo em busca de cafeterias e outros locais (e pessoas) que mereçam minhas demoras...





sábado, 30 de dezembro de 2017

Travessias


2017 se despede...

No balanço desse ano, tenho muito pelo o que agradecer. Aliás, é nessa vibração que procurei estar em todo ano e quero levar para 2018: gratidão. Tenho muitas bençãos para celebrar e muitos aprendizados decorrentes dos momentos que não foram como eu esperava. Hoje fiz um exercício de avaliação do ano, pensando no que desejo mudar em mim, redigindo uma lista de gratidão e fazendo uma outra com sete desejos para 2018, lista esta que tive dificuldade de preencher simplesmente porque sinto que não tenho tantas demandas para o novo ano... Enfim, estou em contentamento! Não é ótimo fechar um ano assim?

Então, cruzo a ponte para 2018 de forma leve, serena e contente, apesar dos pesares! E estas levezas, serenidade e contentamento são o que desejo a todos!

sábado, 23 de setembro de 2017

Passa tempo...

Numa noite nesta semana, eu e meu filho conversávamos sobre o passar do tempo. Com seus conhecimentos científicos (ele adora física, por exemplo) me dizia que estudos indicam que quanto mais idade temos, maior é a sensação de  que o tempo passa mais rápido.Então estou mesmo velha, pois sinto mesmo que este avançar do tempo está acelerado.Setembro entrando em sua última semana, uma nova primavera chegou, em breve a decoração de Natal já estará nas ruas e vitrines... O desafio então, é aproveitar, degustar o momento, sobretudo quando este é muito bom (para não ficarmos com a sensação de tempo perdido) e também sermos seletivo sobre onde empregarmos nosso precioso tempo.

Enfim, não só o tempo passar, mas sabermos passarmos por ele com mais sentidos...

sábado, 16 de setembro de 2017

Amo flores, sim! Mas ao contrário de muita gente, não ando fazendo festa pela chegada da primavera, sobretudo porque significará a chegada de dias mais quentes, e calor demais não me agrada.

Neste ano, pela primeira vez fui à Europa na primavera, e foi realmente lindo ver os jardins floridos, como esse da foto acima, anexo ao Palácio de Mafra, em Portugal. Mas o calor foi intenso na ocasião e interferiu muito negativamente na minha disposição para as caminhadas que tanto aprecio fazer.

Como já disse, minha estação preferida do ano é outono.. .Então, farei a mala em breve buscando o outono em outras bandas deste planeta...

sábado, 2 de setembro de 2017

Belezas

Mais uma foto que amei tirar em Portugal (em Ericeira). O mar, o céu, a casa branca, os caminhos, as plantas, as pessoas não mostradas pela imagem. Beleza somente.

sábado, 26 de agosto de 2017

Natural-mente

 Adoro essa profusão de ipês no inverno daqui. Primeiro os rosas me inebriaram, agora os amarelos. Eles fazem minha viagem da casa para o trabalho mais bonita e colorida. No final de semana passado fui sentir a natureza mais de perto (conforme se comprova na foto abaixo) e cheguei à segunda-feira saudosa de verde e silêncio e de um determinado alguém. Felizmente, durante a semana, pude sentir que chovia flores ao caminhar sob o ipê (da foto acima) na calçada da cidade grande. E, assim, minha saudade se amenizou...

domingo, 9 de abril de 2017

Das coisas não programadas

Adoro planejar viagens: para mim é uma forma de viajar antes da viagem propriamente dita. O planejamento me traz segurança (informação é poder!) e permite-me focar no que valorizo. Mas também sempre deixo brechas, tempo livre na programação, para esquecer o planejado, fechar o mapa e me perder, de certa forma. Foi assim, no momento do não planejado pelas ruas de Gracia (Barcelona) , que encontrei a loja da foto, onde tudo remete à artista mexicana Frida Kahlo. Adorei a loja e encontrá-la foi como achar um tesouro, já que não havia lido nada sobre a loja em blogs ou guias de viagem. Saí de lá com um blusa linda na sacola e muitas belezas tatuadas no olhar.

E na vida também adoro planejar, tem sido com esses planejamentos que tenho conseguido realizar meus sonhos, todos eles, que não são lá muito ambiciosos, entretanto me deixam em contentamento. Mas também tenho adorado as coisas boas e inesperadas que a vida tem me ofertado, que por vezes até podem me desviar do planejado, mas me trazem uma rota melhor ainda, ou  aprendizados necessários, ou ter sonhos não antes sonhados. Planejar é preciso, mas se abrir ao inusitado é mais necessário ainda!

sábado, 1 de abril de 2017

(Des)esperança


O clima no país é de desesperança .O clima no meu trabalho, e não só para mim, é de desesperança. Na minha família, há muitos motivos para desesperança.  No meu coração hoje, há desesperança. 

Mas amanhã, ou melhor ainda, daqui a pouco, quero colorir as ideias, arejar os pensamentos, destralhar o coração, abrir a porta para novas belezas, resignar com que o que não cabe a mim mudar, mas agir no que posso transformar. Quero continuar caminhando, não me paralisar frente às notícias ruins ou à ausência delas.E torcer por boas novas.

Enquanto isso, essa foto que tirei em Portugal me traz alento. Lembra-me das coisas boas da vida, mesmo quando efêmeras. 

Daqui a pouco, uma nova hora, um novo tempo. E espero que seja tempo de esperanças...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Tempo para as coisas que aprecio

Natal veio e passou; ano novo começou. Fiquei semanas sem postar, mas está tudo bem, só ocupada com outras coisas que não sejam o computador e o mundo virtual...rs  Ainda não estou de férias, mas estarei em breve, e por isso só voltarei a postar em  meados de fevereiro.

Todo mundo reclamando de 2016, mas não posso olhar para ele só com queixas, pois ele me ofertou coisas boas e bonitas também. E viver é isso, essa mistura de dor a prazer, alegria e tristeza... Tenho buscado focar nas coias boas, na gratidão, e tenho conseguido. 

Não fiz lista de objetivos para 2017. Mas seja o que eu fizer desse ano, que eu continue focando no que aprecio, no que me faz bem e me faz melhor (para mim mesma e para os outros).

Um novo ano incrível para todos e que sejamos melhores para 2017 e para os anos vindouros!

domingo, 6 de novembro de 2016

Quarto de Mario Quintana

Voltei a Porto Alegre nessa semana, onde pude assistir a uma palestra sobre a narrativa de terror e suspense, ofertada pela Feira do Livro de Porto Alegre, que nesse ano já está na sua 62° edição. Também pude adentrar (finalmente!) na Casa de Cultura Mário Quintana, e conhecer o quarto do poeta (foto acima), que viveu no local quando ali era o Hotel Majestic. Os detalhes do quarto deixam a impressão que o poeta acabou de deixar o aposento para pescar mais poesias nas ruas de Poa...

Foi uma semana de várias viagens, inclusive com uma nova visita a Confeitaria Colombo, no Rio. Renovei-me e voltei mais fortalecida para lidar com o luto: um tio querido morreu nessa sexta, aos cinquenta e nove anos... São os ônus e bônus de se viver.

sábado, 15 de outubro de 2016

Sonhos e concretude

Essa imagem retrata a materialização de um sonho, o que descrevi na ocasião no meu Facebook, conforme transcrito abaixo:

No início do ano passado, voltando de outra viagem, li numa revista da cia aérea em que eu voava uma reportagem sobre Bolonha... Eu já planejava voltar a Itália, mas Bolonha não estava até então nos meus planos. .. Mas eu li aquela reportagem, e vi a foto da biblioteca universitária daqui e foi amor a primeira vista: eu precisava conhecer Bolonha e aquela biblioteca! E aqui estou eu, encantada com essa minha semana em Bolonha! Adoro cidades com jeito de pequenas mas com a vida cultural e gastronômica de cidade grande, e assim é Bolonha! Hoje as ruas no entorno da piazza Maggiore foram fechadas, prática recorrente nos finais de semana daqui, e durante o dia e a noite a população usufrui desses espaços numa vivacidade deliciosa!
E quanto a Biblioteca. .. bem, por duas vezes nessa semana tentei visita-la, mas sem sucesso: estava fechada para visitas. .. Hoje fiz mais uma tentativa. ..e novamente estava fechada... Mas eu expliquei ao senhor da recepção meu amor pelos livros e meu interesse por essa biblioteca em particular. .Ele se compadeceu de mim e me acompanhou até lá.. Foram menos de cinco minutos lá dentro, mas o suficiente para meu deslumbramento e sensação de mais um ciclo concluído. .. E que venham novos desejos por conhecimento!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Um texto, um desabafo

Para sublimar um atentimento muito ruim que recebi, fiz o texto abaixo:


                                                              Diagnosticado                                                                                                                                            Luciane Couto
“O processo de criação narrativa é a transformação do demônio em tema” Vargas Lhosa                                                                                                                             
Você, leitor, certamente já ouviu falar da Síndrome de Stendhal, um distúrbio psicológico desencadeado pela overdose de beleza, sobretudo frente a obras de artes.  O autor francês Stendhal, que empresta seu nome ao distúrbio, foi o primeiro a descrevê-lo, em 1817, ao mencionar no diário de viagem sua experiência ao visitar uma basílica em Florença. Décadas e décadas mais tarde, a psiquiatra italiana Graziella Magherini descreve reações (desmaios, vertigens, alucinações, desequilíbrio afetivo...), semelhantes às descritas por Stendhal, em dezenas de outros turistas que visitavam Florença, e daí configurou-se a tal síndrome. Eu mesma fui acometida por ela: chorei copiosamente por minutos intermináveis ao visitar pela primeira vez a Duomo, em Milão, e não consegui permanecer no interior da Catedral de Notre Dame, em Paris, devido a um sentimento de angústia atroz. Felizmente, meus sintomas não permaneceram nem se ampliaram. Assim eu acho.
Mas esqueça Stendhal, pois quero compartilhar com você a descoberta (minha) de uma nova síndrome!!!  Um artista medíocre acredita piamente que seu trabalho é irrepreensível, e que os demais, pueris reles mortais, devem reverencia-lo e enunciar calorosamente os atributos do seu trabalho. Bastou alguém o ter elogiado no passado para ele se sentir magnânimo, invencível, capaz de justificar sua atrofiada sociabilidade pelo seu talento, que acredita ser singular e elevadíssimo, quando na verdade nada mais é que uma versão pálida de Florence (entenderá minha comparação ao ver o filme “Florence, quem é essa mulher?”, mas a versão hollywoodiana perde para o francês “Marguerite”). Eis a Síndrome de Shakespeare!
E ai do pobre sujeito que questionar o profissionalismo ou evidenciar alguma mácula no desempenho do acometido pela Síndrome de Shakespeare, pois será alvo de toda a agressividade do tal artista, que descerá do Olimpo para empenhar uma energia hercúlea para provar que sua obra é algo como um Porfírio ou Clício, quando na verdade é liliputiana e raquítica. Deus nos proteja dessa síndrome e dos que dela sofrem, pois não parece haver fármaco ou psicoterapia que a aplaque. Talvez só reza brava funcione, muita e ecumênica.
Aprofundarei no estudo nosológico da Síndrome de Shakespeare, que provavelmente será incluída no Novo Código Internacional de Doenças. Inclusive já consigo antever, desde já, plateias lotadas me ouvindo explanar sobre a nova doença, e no fim dessas explanações, eu sendo aplaudida de pé, ovacionada, laureada...
Esqueci-me de mencionar: a Síndrome de Shakespeare é altamente contagiosa. Mas para provar que estou ainda em posse de minha sanidade, ressalto que na verdade devo compartilhar o mérito pela descoberta e descrição da nova síndrome com uma grande profissional e amiga:
- Cristina, o Prêmio Nobel será logo nosso!
E não poderemos deixar de agradecer e dedicar nosso futuro prêmio ao Dudu, pois graças a ele identificamos e comprovamos a Síndrome de Shakespeare.  Viu, Dudu, sua fama finalmente se perpetuará!

“Resta saber de onde vem essa necessidade absoluta que transforma todos os escritores em eternos indigentes do olhar alheio” Rosa Montero

quarta-feira, 17 de agosto de 2016